De que são feitas as urgências? De dizer que não posso ter vindo assim à toa.

Urgências

Posted: July 9th, 2009 | Author: maca | Filed under: Uncategorized | Tags: | 3 Comments »

Do coração partido. Da frieza. Da espada. Da esperança, despedaçada. Urgências da vida.

Pequenas, desprezíveis, aborrecidas urgências. Urgência dos din-dons das campainhas tilintantes. Urgências dançantes em festas que, como tiros, soam festim. Urgências em CAPS LOCK, salgadas. Urgência triste, urgência sozinha, urgência calada.

Urge o belo. Urgem as flores. A astronomia, as constelaçoes, os astrolábios e os signos urgem em unissono pelo universo. Urgem os unguentos loucos pra sarar. Os curandeiros. A grama macia.

Urgentes são as notas silenciosas e os grilos musicais.

A urgência toca nas rádios a caminho do trabalho. No primeiro choro da vida, no eco dos últimos passos. Nos muros brancos e altos com topos eletrificados. Nos amores que pulamos como muros.

E alí está ela, nos urgentes avisos de atar cintos que se apertam pelos vôos dos céus.

Urgência dos horários. Dos raios que o partam. Urgências dos mares que não podemos entrar quando chove trovão. Urgência de tomar a chuva que estivemos evitando durante a vida inteira. Urgência de sermos feios, e daí? E de sermos ingênuos. Urgência de sermos enganados porque enganados nos sentimos humanos.

Urgência de voltar pra casa contigo. E sentir teu olhar que vem do outro banco. E a urgência distante do chiados dos pneumáticos mal calibrados no asfalto molhado. Urgência do próximo semáforo estar fechado para que passemos, assim, mais um semáforo juntos nessa vida.

E das cartas, então? Urgência que vem já carimbada. URGENTE. Os envelopes trazem as frases bonitas e as vezes os adeus. Urgência do abraço. E do carinho. Urgência da vida, porra. De ralar-se na aspereza, não é Cecília? De fazer samba e amor até mais tarde, não é Chico? Urgência desse conhaque e dessa lua colocarem a gente comovido, não é Carlos?

Urgência de parar de se passar por alguém. De estar em função de algo que não é a gente de verdade: trabalho, vício, livro, filme, carro, CEP, cor  – o stop da vida moderna.

Urgência de trocar os verbos. De definir-se pelo que se é e não pelo que se tem. Urgência de te dizer que vim. E que não posso ter vindo assim à toa.